Maria Carmen e Vera Bastos: A Arte Como Resistência

(...) Acredito, porém, que a arte também pode ser como um poço de petróleo, que mesmo ainda não descoberto está latente sobre a terra. Sinto algo assim em mim, talvez o dom me tenha sido legado, com o nascimento e talvez, somente agora, como um jato de petróleo, tenha afluído à superfície. A arte para mim não é distração é necessidade. Talvez um vício. Tendo como princípio a teoria de que, arte não tem pátria, não tem idade, não tem preço e não tem limites; venho trabalhando sem cessar, como se viesse através dos meus trabalhos, escrevendo a história de minha vida, sem poupar esforços físicos ou mentais, dando de mim o máximo em cada trabalho. (Maria Carmem, 1962, s/p).

A artista firma uma posição no campo das artes, sublinhando que a arte para ela não é distração, noção tão comum imposto às mulheres que desejavam alçar carreira profissional nesse campo. Mas a arte para ela é necessidade vital, interiorizada nas profundezas do seu corpo, pronta a explodir para o exterior e quando acionada tende a vir à tona, sem o mínimo controle, viciante. Essa intensidade que vemos nesse fragmento – a relação entre desejo e criação que não tem limite -, respondeu à sua necessidade interior constituindo uma narrativa de si e resume bem os caminhos visuais que sua produção percorreu. Quando motivada por essa necessidade, que a invadia por dentro, dando vazão a esse transbordamento, assumiu-se como artista. 

Em decorrência desse posicionamento Maria Carmen sofreu sanções sociais, interrompeu relações, afastou-se da filha, Vera Bastos e de Jorge Bastos, filho caçula. Chegou a ser interditada em clinicas psiquiátricas, não apenas uma vez, considerada desequilibrada dos nervos. Ela apenas queria viver essa urgência chamada arte. Difícil para uma mulher, oriunda do contexto social que Maria Carmem de Queiróz Bastos, pertencia. Assumir-se como artista era sinônimo de loucura. Para entendermos melhor como as mulheres foram colocadas à margem do campo artístico é preciso considerar que este processo de subalternização foi construído sócio-historicamente. 

Não obstante, Maria Carmen assumiu-se artista e construiu relações de sociabilidades e afetos com artistas renomados (as) nacionais e internacionais, entre esses nomes, citamos Francisco Brennand, José Claudio, Ladjane Bandeira, Ivan Carneiro, Wellington Virgolino, Teresa Costa Rego, Orley Mesquita, Pietro Maria Bardi, Walter Zanini, Edouard Jaguer, entre outros/as. Integrou o Grupo  Austral do Brasil, agenciamento surrealista que fazia parte  do movimento francês PHASES, criado pelo artista francês Edouard Jaguer e articulado no Brasil pelo crítico e historiador da arte Walter Zanini, nos anos sessenta. A arte de Maria Carmem foi demarcada por territórios oníricos, eróticos e políticos, ampliando o regime visual de uma produção que cruzava elementos da natureza “dita regional” e uma potente mensagem poética e política das funções do imaginário, do sonho e da loucura no campo das artes plásticas.

Frequentou o Movimento de Cultura Popular – MCP, como aprendiz promissora, desenvolveu desenhos com base no programa estético elaborado para o campo das artes do MCP. Pouco antes, na cidade do Rio de Janeiro - em um dos momentos de interdição em clínica psiquiátrica -, fez escultura com Humberto Cozzo. O exercício da pintura chegou mais tarde, por meio da realização de um curso de pintura, desenho e história da arte, no seu ateliê e residência na rua das Crioulas 94, conjuntamente com Zé Cláudio, Orley Mesquita, essa experimentação pode ter ajudado Maria Carmem a se aproximar da pintura, “Foi um curso livre, sem tensões, de onde saíram alguns artistas e para onde eram atraídos outras já feitos. Como ponto de encontro, funcionava principalmente aos sábado” (Maria Carmem, 1988, s/p). Outra experiência que contribuiu para seu investimento na pintura foi ter em 1972 começado a trabalhar na fábrica de tecidos CIP Camaragibe, junto com Orley Mesquita, onde permaneceu até 1975, atuando como padronista, desenhista e colorista, depois desempenhou idênticas funções na Fábrica Paulista (Aurora) e Fábrica Capibaribe,  segundo a artista,  “esse fato modificou muito o curso de minha vida. Acho que foi a partir daí que vieram as cores mais fortes, já em forma de pintura, somando com a disciplina exigida nas padronagens. Comecei a realizar uma pintura tendendo mais para o real quase expressionista”.  (Maria Carmem, 1988, s/p). 

Nesta exposição organizada pela Christal Galeria estamos celebrando a existência e a trajetória dessa artista extremamente importante para a arte internacional brasileira. Basicamente foi a única artista mulher, entre um grupo particularmente composto por artistas homens, entre meados dos anos 1960 e primeira metade dos anos 1970, que integrou exposições coletivas em outros estados e no exterior, participou de Bienais de Arte de São Paulo, de Salões Nacionais das artes, alcançando prêmios e distinção no meio artístico, novamente, formado por agentes do sexo masculino. Entre 1963 à 1968 Maria Carmem consegue, por meio das redes de sociabilidade com esses agentes alcançar visibilidade, reconhecimento e certa consagração. 

Além, do gesto de celebrar sua existência, essa exposição deseja recontextualizar (rever) a importância da artista e de sua obra no contemporâneo e apresentar, simultaneamente, a obra de sua filha, Vera Bastos Barcellos, nascida em Recife e relativamente jovem, faleceu no ano de 1994, deixando sua produção pictórica e sua inquietação artística de criação, que se aproximava muito à de Maria Carmen, sem o reconhecimento merecido. Vera Bastos nasceu em 1952 na cidade do Recife, também foi considerada pela família como uma jovem rebelde e a exemplo de Maria Carmem, também canalizou essa urgência para a criação artística. Ou seja, fugiu aos padrões estabelecidos socialmente e por meio da fabricação artística canalizou seus desejos. Vera Bastos, participou de alguns salões de arte em Pernambuco, acompanhou Maria Carmen nos ateliês, geralmente ateliês/residências que a artista organizava onde fixava moradia no Brasil e no exterior. Dessas experiências, Vera Bastos foi iniciada na linguagem pictórica e herdou da sua mãe parte de sua poética surrealista feita por meio de fragmentos de imagens que se assemelham aos sonhos e ás memórias que nos chegam aos pedaços. Como leu muito bem Raúl Córdula o universo pictórico de Maria Carmen que se aproxima ao de vera Bastos.

Para conhecer o universo pictórico de Maria Carmen é preciso livrar o coração de sentimentos supérfluos e das palavras vãs. Seu mundo é original, criado por ela mesma numa atmosfera e eivada de personagens oníricos, de pedaços quebrados da infância sepultada, recantos de quintal, `bodegons`, de pequenos viventes e espíritos alados. Não conheço nenhum percurso trilhado tão delicado e, ao mesmo tempo, tão emocionalmente traçado. (Córdula, 1997, s/p, grifo nosso).

Frente a essa delicada interpretação proposta por Córdula, acreditamos que exista uma fina linha que une e atravessa o trabalho pictórico, quase desconhecido em nosso meio, da artista Vera Bastos. Há, a nosso ver, um entrelaçamento entre elas, um encantamento, um modo de fabulação de si e do mundo no qual elas viveram. Há, também, desejos latentes presentes nesses trabalhos que são singulares a cada uma das artistas e do modo como narram suas urgências vitais, afinal, para ambas a arte era resistência e necessidade de vida. 

Joana D'Arc Lima

Visitação:  14 de agosto a 11 de outubro de 2024