Sonhar com fogo,
dançar com as mãos
Toda linha tem mania de história e, por aqui, também é assim. O fio que liga as imagens desta exposição nos conta da repetição, da insistência e do que explode. Enquanto isso, Marcella dorme, acorda e borda; borda acordando, e acorda bordando. Dormindo, sonha de forma recorrente, como o movimento da agulha e da linha que gerou estas tapeçarias feitas de lã sobre linho e algodão.
O bordado é coisa de fazer, de viver vivendo, de dançar com as mãos (ou de mãos em mãos). É matéria de dedo nervoso querendo contar das coisas da vida, do que se passa por dentro. Olhando mais um pouco, esse desenhado também se traça em cores: naval, musgo, mel, siena, verona, cru, barroco, pastel, marajoara. São tons dando contorno e preenchimento a elementos que se fazem na constância e se alinham no todo.
Tem fogo de brisa balançando quem olha; tem frases sobre as estrelas convidando a ler direitinho; e tem o céu debaixo dos pés para se andar no azul. Mas o que sentimos mesmo é o sol bem quente no quintal, clamando para ser visto. E sem problema: tem fogo em água de rio; na terra tem mil vulcões; subir montanhas, em cinco partes. Cores do mar, festa do sol, sem isso nada seria.
O Sol, em sua representação mais direta, é figura-chave dessa constância, insistindo-se onipresente em sua geometria de meia curva, semiaparente, mas simétrica, diametralmente recortada. Nas composições aqui apresentadas, o Sol nunca está por inteiro, porque a artista precisa domar essa aparição, tecendo equilíbrio no movimento de explodir por dentro, mas aparecer aos poucos, devagarinho.
O “grande rei” puxa os fios de uma canceriana tímida com mania de fogo, ponto que se acende nessa jornada como elemento-necessidade. Marcella sonha com isso, não é figura de linguagem. São sonhos recorrentes...
— Neles, quase sempre tem uma luz que estoura, brilha e voa longe preenchendo o céu. Uma vez, eu vi a aurora pela janela, ela entrou pelos meus olhos e me amanheceu um mundo inteiro por dentro, num susto. Como explicar a sensação? As explosões são fenômenos de natureza quente; desde então, eu sinto muito calor — narra a artista.
O Sol, no verbete poético de Manoel de Barros, é “quem tira a roupa da manhã e acende o mar”. Marcella enxerga como celebração da vida, oposta a qualquer apagamento. O Sol é razão de existência, vem na medida certa, a gente até esquece… Até quando?
Estrela de infinita grandeza, beleza, que ilumina as memórias e as emoções de uma menina agrestina, crescida no barulho da máquina de costura, no meio das linhas da mãe, das avós e das tias, que buscou nessa simplicidade milenar o complexo traçado da paciência, do ofício de quem sabe insistir e brincar com a repetição.
O que vemos aqui não tem só figuras ou palavras, é matéria de gesto, de trabalho, de desenhos e rascunhos, de ir e vir, de refazer, de escutar música, coçar a vista cansada, alongar a coluna, lembrar poema, não esquecer as férias, o sítio de Caruaru, a praia, as árvores, as estrelas, as frutas e o sonhar voando quando criança. É sobre se descobrir e se destravar, desprendendo-se em linhas. Porque o fogo também tem água, vento e Marcella Vasconcelos sabe dançar em segredo com suas mãos douradas.
Olívia Mindêlo
Visitação: 27 de novembro a 28 de fevereiro de 2025