Travessia
Voltar o olhar para o trabalho de Izidorio Cavalcanti, após um recente e intenso mergulho na sua produção, me faz pensar nas camadas diversas que compõem a obra de arte – a que veio, para que veio e por que veio? Enxergar as múltiplas falas, suas potencialidades e suas entrelinhas é o desafio proposto, aquilo que está na episteme das artes. Travessias é, portanto, antes de tudo, um olhar, um ponto de percurso, um desejo e também um convite.
A obra de Izidorio Cavalcanti nasce no seu enovelamento com a politeia, em torno dos anos 90. Uma produção múltipla, que se apresenta através de instalações, fotografias, performances, objetos, bordados e pinturas elaborados, muitas vezes, por um aparente acaso. Trata do lugar incerto do corpo no mundo, que por vezes se coloca de um modo mais explicitamente político, embora aqui, poeticamente lírico.
A Mostra aponta para uma travessia do desassossego, esta que também foi realizada por outros conterrâneos do artista, como o poeta Miró. São andanças que bebem na história da arte e na história do nosso país e que são importantes, jamais por rotular, mas na intenção de incitar a discussão sobre a potência desse percurso.
Os trabalhos de Izidorio aqui expostos carregam o campo vazio no qual estamos inseridos, como pássaros engessados em paisagens (in) acabadas ou territórios queimados e aprisionados. Apontam, em seus vermelhos, para as forças que se revelam na dor de um coração aberto, mas também para a suspensão que marca o acaso e a reconstrução, pois é preciso “atravessar o deserto, temos que atravessar”, como nos ensinou Ailton Krenak.
Rebeka Monita
Visitação: 20 de fevereiro a 30 de abril de 2025