Rituais, Tramas e Cosmogonias  

A seleção curatorial que a Christal Galeria de Arte apresenta na ArtRio, edição 2024, percorreu a escolha de artistas indígenas que integram o time da instituição. São artistas que carregam em suas poéticas, também em seus corpos e em suas existências, questões ligadas ao tema da representatividade e resistência dos povos originários no nordeste brasileiro. Os trabalhos visuais selecionados, no horizonte maior de sua abrangência, sustentam tramas narrativas que interpelam a versão da história oficial em relação à dizimação dos povos indígenas e suas lutas de resistência, mas também, a geopolítica das artes que contribuiu para erigir hierarquias desiguais forjando condições assimétricas entre artistas do norte e do sul global, sudestinos e nordestinos, por exemplo. Ziel Karapotó e Olinda Tupinambá são multiartistas, desenvolvem pesquisas em múltiplas linguagens e assumem diversos papéis no campo das artes: artista/performance, artista/músico, artista/educador, artista/cineasta, artista/curador, artista/formador, artista/produtor, artista/artista, artista/ativista, artista-etc.

Dito isso, as escolhas dos trabalhos se deram por meio das implicações visuais entre eles, diálogos e conexões, tramas visuais compostas pelas práticas e presenças dos grafismos - que se misturam aos modos de fazer e de narrar de criadores/as indígenas em tempos dispersos da criação – e tramas narrativas visuais propostas por meio de performances – foto performance e vídeo - que denunciam fortemente os processos coloniais e da colonialidade, que insistem em se perpetuarem em nossa sociedade. É com base na presença desses relevantes grafismos, da força simbólica do ritual manifestada nas poéticas de Ziel Karapotó e de Olinda Tupinambá que esse encontro, entre ele e ela, se configura como uma parceria e se faz presente nessa exposição na ArtRio edição 2024. Ziel Karapotó e Olinda Tupinambá apresentam investigações e pesquisas que fabulam experiências e saberes de processos criativos, atravessados por referências que requalificam a passagem do tempo (tradições), o sagrado, o imaginário e a crítica ao colonialismo, à modernidade ocidental, o antirracismo, no fluxo do tempo.  

Considerando o supracitado, a Christal Galeria apresenta na ArtRio, Olinda Tupinambá - indígena do povo Tupinambá e Pataxó Hãhãhãe, jornalista, curadora, performance, cineasta e ativista ambiental -, por meio do trabalho intitulado Ibirapema¹, realizado em 2022, dentro do escopo conceitual de uma residência artística proposta pela Pinacoteca do Estado de São Paulo. A artista fabula um personagem que vive em um tempo mítico e se desloca da Bahia para São Paulo. A personagem transita pela região de Serra Grande, Olivença e Água Vermelha, no litoral sul da Bahia. Em um hiato temporal, a personagem se depara com uma paisagem avessa a seu lugar de origem, representada em São Paulo, com seus edifícios e instituições culturais. Esse estado em transição de paisagens territoriais, do tempo e de paisagem afeta também a personagem que sofre mutação “de sua pelagem de onça, que, ora melânica, ora multicolorida, assimila do novo território as narrativas contadas sobre si``. Se valendo de valores das cosmogonias indígenas, reitera o poder e o fascínio que a onça simboliza em diferentes culturas indígenas, “apresentando-se como uma entidade capaz de transitar e conectar tempos e planos existenciais". 

Destacamos também o curta metragem, Equilíbrio (Olinda Tupinambá, 2020), que propõe debates sobre a temática do reflorestamento, ativismo, educação, cinema indígena e soberania alimentar. Simultaneamente aborda a nossa civilização em crise e os modos de vida atuais e seus limites. “Equilíbrio é um alerta do espírito das matas para a humanidade e nossas relações com o planeta". 

Ziel Karapoto, indígena da etnia karapotó, da comunidade Terra Nova – AL é multiartista comprometido com um projeto de sociedade que retoma as cosmologias e cosmogonias dos povos indígenas como parâmetro civilizatório. Artista militante, artista ativista, inquieto e construtor de redes formativas e de resistência. Iniciou sua pesquisa artística na condição de educador de museu, essa experiencia certamente sedimentou seu caminho. Se apropriou de um arquivo visual colonial – que tinha acesso por meio da condição de estar como arte/educador em um Instituto Cultural², que contém um acervo rico de coleções coloniais - para desenvolver um contra arquivo colonial e assim criar um outro inventário narrativo sobre a história do Brasil e da arte indígena brasileira, para educadores/as, professores/as, estudantes e público de maneira geral³. Desenvolveu também uma investigação pictórica por meio de técnica mista – parte dela termos oportunidade de visitar com a apresentação de seis destes trabalhos na ArtRio. Construiu narrativas críticas atualizando os modos de vida dos povos indígenas do Nordeste e seus valores, por meio da montagem e da colagem com imagens fotográficas - inéditas constelações visuais.

A fotografia e o vídeo são extremamente presentes em sua pesquisa e processo de criação, portanto, os atos performáticos e as fabulações (encenações, rituais, cortejos, apresentações, fabricações, invenções) são recorrentes em sua poética artística. O desejo em fissurar e rachar as construções narrativas estabelecidas como hegemônicas (ocidentais), faz parte de um projeto artístico comprometido com seu povo. Ziel Karapotó, confronta processos coloniais em suas instalações e performances, evocando a resistência contra os processos de necropolítica.  Nesta exposição é possível conectar esses termos de referências que sustentam essa poética de caráter decolonial na foto performance, Ziel Karapotó como Fumaça de 2022 e no ato performático Evocando a cura de 2024, que realizou com Olinda Tupinambá na 60ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia. 

A Christal Galeria ao apresentar na ArtRio essas trajetórias de artistas indígenas do nordeste do Brasil apresenta simultaneamente seu projeto artístico também e reafirma seu compromisso com o incentivo à produção, circulação e visibilidade da arte indígena brasileira no circuito de arte. 

¹.  Ibirapema — palavra tupinambá que significa “tacape”. Olinda Tupinambá em 2022 foi convidada pela curadora Horrana de Kassia Santoz para integrar o grupo de artistas do primeiro programa de comissionamento da Pinacoteca em parceria com a coleção Ivani e Jorge Yunes.
². Ação/performática intitulada Cura, ocorrida em maio de 2018 em uma das salas expositivas do Instituto Ricardo Brennand – Recife/PE.

³ .Em 2016 foi premiado no 8° Salão Universitário de Arte Contemporânea de Pernambuco (VIII ÚNICO) com a instalação-performance “Inventário Curumim”. Em 2017, realizou a performance “Entre o fogo e a“penumbra” no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife. Ainda em 2017 realizou, no Instituto Ricardo Brennand, a performance “Todos falam de mim, ninguém me representa!”.

Joana D’arc Lima

Visitação:  25 de setembro a 29 de setembro de 2024